Combinações, numa dimensão maior.

Eis-nos chegados à 8.ª edição do Festival Internacional de Fotografia de Avintes – iNstantes, uma edição a acontecer num contexto de fisicalidade mínima e de sociabilidade maioritariamente digital. Resguardamo-nos, como tantos outros, na alternativa do online para manter a nossa presença junto de quem nos acompanha e cumprir a nossa função enquanto agentes culturais.

Nesta edição, que é intergeracional e multifacetada e onde se dá visibilidade e divulga a Fotografia feita por mais de 50 mulheres, a programação incluirá, pela primeira vez, uma vertente educativa/pedagógica/formativa que se desenrolará em actividades online: sessões temáticas, conversas entre fotógrafas e workshops. Parece-nos útil desafiar, incentivar a interação, potenciar novos diálogos e reflexões em torno do processo de criação.

Além disso, manteremos as exposições materiais, onde a fisicalidade do corpo e as suas expressões possam existir e dar “vida social às obras” e onde os visitantes possam sentir e ser provocados pelas obras, sem o receio da proximidade. É neste confronto que se aprende e reaprende e é essa a função social que não descartamos.

Enquanto curadora desta 8.ª edição do Festival, cabe-me contribuir para que o impacto emocional que as imagens possam provocar aconteça, como uma dança entre o lugar e as obras, pelo prazer da arte fotográfica e pelos cruzamentos possíveis, numa dimensão maior.

O primeiro propósito, alicerçado na capacidade que as autoras têm de falar de si e de se constituírem como referentes, é destacar a autoconsciência e reflexão crítica de onde emergem, de vários prismas, diferentes identidades no feminino. Alguns trabalhos são ensaios auto-reflexivos onde as autoras, simultaneamente fotógrafas e performers, nos conduzem pelo território irreverente das suas narrativas de corpos fotografados. Seja pela busca criativa de uma imagem atrevida ou perturbadora da realidade, pela desconstrução pós-moderna, pela revalorização de uma linguagem hibrida ou pela fabricação da imagem na interseção da escultura ou da pintura com a fotografia, os trabalhos apresentados são, simultaneamente, afirmação, resistência e libertação.

O segundo propósito, reside no facto de salientar o domínio do invisível, aquele que está por detrás do que é mostrado e que importa considerar para assim se apreender a obra de forma plena. Inerente ao conjunto das subjectividades e autoralidades dos trabalhos, existe o significado/simbólico que, de forma mais literal ou mais poética, translúcida ou efémera, nos possibilita a dimensão da invisibilidade presente em conceitos universalistas como amor, morte, identidade, sofrimento, incerteza ou esperança.

Por oposição às imagens técnicas e a uma homogeneidade visual asfixiante, repetida à exaustão, o terceiro propósito consiste em refletir e fazer emergir o avesso dos processos criativos, as pontas soltas e os fios e maranhados, que são tornados públicos, nos seus lados direitos. A enfâse está na importância do processo das artistas, que experimentam diferentes procedimentos, alinhavando-os criativamente e dando lugar a um inesgotável repertório de combinações.

Por último, o propósito de afirmar a presença das mulheres no mundo da Arte e da Fotografia em particular. Tal como em tantos outros países, também em Portugal, várias mulheres fotógrafas se dedicam (e dedicaram) à Fotografia como hobby, criação artística ou meio de subsistência. Não querendo fazer uma análise exaustiva do seu papel na História da Fotografia Portuguesa, não posso deixar de relevar o que a historiografia nacional apropriada não fez: afirmar a sua existência, ontem e hoje. Os seus trabalhos, não são compatíveis com a ausência, a invisibilidade ou o silêncio.

Alice WR, 2021

 

 

 

 

 

 

 

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