Hélder Paz Monteiro

CABO VERDE  https://youpic.com/h.pazmonteiro

Hélder Paz Monteiro, nasce na ilha de Santo Antão (Cabo Verde), em   1973. Em 1998, enquanto estudante de arquitectura e urbanismo no Rio   de Janeiro (Brasil), compra a sua primeira câmara fotográfica analógica   e começa a fazer as primeiras fotografias. Em Abril de 2004, na Suíça,   adquire uma câmara fotográfica digital e a partir dessa data começa a  encarar a fotografia de forma diferente. De 2005 a 2018, além de participar em várias exposições colectivas dentro e fora do país, destaca-se ainda em oito individuais realizadas em Cabo Verde. É co-autor em 8 antologias de fotografias contemporâneas publicadas em Portugal pela Chiado Editora e Edições Vieira da Silva. Por duas vezes foi nomeado na categoria “cultura” nos “Somos Cabo Verde – Os Melhores do Ano”

 

EXPOSIÇÃO: A (LUZ) QUE (NÃO) VEMOS

© Hélder Paz Monteiro

UMA SINFONIA DE SOMBRAS

Não há uma “gramática” que faça a ponte entre o que as palavras procuram descrever e o que as imagens mostram. Este é um namoro antigo e não correspondido, traído à partida por aquela injusta e cruel sentença, em tom de epitáfio, de que elas (as imagens) falam por si e são suficientemente eloquentes no seu silêncio hierático (Valem por mil palavras, diz-se). À parte a auto-suficiência arrogante desta ideia feita, falar da imagem fotográfica é um exercício ingrato, porque na sua condição de “texto” ela tende, como vimos, a dispensar as palavras e, o seu silêncio, a rivalizar com elas. Quem sabe se as imagens ‘fogem’ das palavras com medo de que estas as captem, ou as capturem? Só a teimosia dos fotógrafos e a imprudência dos escreventes propõem contrariar este paradoxo e este desencontro irresolúvel. Confessemo-lo, as imagens possuem uma agudeza que só a custo as palavras atingem.

Na obra de Hélder Paz Monteiro (Santo Antão, 1973), o processo de fragmentação da realidade, próprio da condição fotográfica, antes de ser uma opção técnica é um exercício estético de desconstrução criativa. Para a sua arte, o que importa não é captar um lugar reconhecível, explorando o seu potencial estético com base em clichés, mas recriar o espaço a partir de referências aparentemente secundárias, formas contrastantes, planos inusitados e subtis jogos de simetria, ângulos e linhas, elementos espaciais que cruzam com o olhar do arquiteto, que ele também é. Os lugares são para ele cenários onde a realidade se projeta. Como nesta série, A (LUZ) QUE (NÂO) VEMOS, em que ele escolhe um ponto focal em altura, que funciona como eixo heliocêntrico em torno do qual tudo se move, permitindo-lhe um olhar abrangente (panótico), em plongé, omnipresente e discretíssimo, como se o fotógrafo voluntariamente se ausentasse da cena, para, fragmento-a-fragmento, reconstruir uma ideia de lugar, que já só subsistisse como possibilidade ficcional vagamente mnésica.

HPM sabe, que quando o olhar toca um objeto “o mesmo não é igual ao mesmo” (Blanchot). Pouco importa que estas imagens sejam de um espaço público conhecido e ‘legível’ (no caso, o Mercado Municipal da Cidade da Praia), porque depois de fixadas, pouco ou nada restará dessa ‘legibilidade’ original. É por isso que ele fotografa contra a mortalidade do óbvio. O que lhe interessa explorar, e é tão evidente nesta série, são as possibilidades de recriação e transfiguração de um dado meio, transformando-o num texto visual novo, como se construísse uma ficção abstrata, em que o público dá lugar ao íntimo, o aberto ao fechado, o ruído ao silêncio, a azáfama à reserva, o buliço à tranquilidade, o excessivo ao contido, onde luz e sombra invertem posições na construção da imagem, a partir de uma ideia de mínimo essencial, nomeadamente, de pequenas parcelas de luz a amplificar os detalhes e onde o menos é sempre mais. Poderíamos ir mais longe e defender a ideia de um manifesto contra a distração, desafio lançado a todos os incréus, para que toquem, sem medo, essa ferida de espanto, constantemente aberta no corpo da obra de arte, ou para responderem a esse irrecusável apelo beckettiano, que nos convida à queda: “Olhar! Voltar a olhar! Olhar de novo! Ver melhor!”

Esta série extraordinária, é um exercício de paciência, rigor e precisão, servido por uma linguagem contida e equilibrada e por um vocabulário rarefeito, denso e contrastante, em HPM leva as imagens até limites extremos de visibilidade e reconhecimento, até ao seu quase desaparecimento, que é, afinal, o seu novo e paradoxal estado de revelação e reverberação, tal como uma densa sinfonia de sombras e suas delicadas variações de luz.

José Eduardo Cunha

Praia, julho 2019

 

 

 

 

 

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