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José Miguel Soares dos Reis, Moçambique, anos sessenta.

Designer gráfico e editor, utiliza a fotografia no seu âmbito profissional, que tem passado pelo uso de imagens suas em imensas e diversas publicações – livros de poesia, de ficção, de ensaio, brochuras institucionais, catálogos, guias e álbuns temáticos relacionados com o património, a arquitectura, a cidade, os espaços e os lugares, etc.

Destacam-se, entre outras, as obras Prontuário Toponímico Portuense, Restauro dos Órgãos da Sé Catedral do Porto, Ponte Luis I, Estação de S. Bento/ Marques da Silva, O Convento e a Venerável Ordem Terceira de São Francisco do Porto e Alberto Péssimo – Ossos do Ofício.

Desde muito novo que se dedica à fotografia nas suas variadas técnicas e expressões, desde as mais ancestrais, como a «Camera Obscura», a  «Pinhole», a Cianotipia, a fotografia analógica, até aos actuais processos digitais.

Numa vertente mais criativa e conceptual tem procurado incessantemente o registo de imagens onde a natureza, através da luz incidente e reflectida, destaca a pureza efémera das suas linhas e formas orgânicas.

Dá formação em workshops temáticos, procurando aí encontrar dinâmicas de pesquisa e partilha com outros aficionados da fotografia

Está representado em colecções particulares e tem participado em exposições individuais e colectivas.

Está a preparar o seu primeiro livro em nome próprio, a sair em 2021.

Esta exposição está integrada no âmbito do iNstantes 2020 – Festival Internacional de Fotografia de Avintes (Vila Nova de Gaia, Portugal).

 

EXPOSIÇÃO: A PELE DO MAR

© José Miguel Reis

O fotógrafo faz o impossível: fixa a coisa fotografada. Fixa aquilo que, em absoluto, não é possível fixar: o movimento da folha na brisa ou no vendaval, a corrida da gazela na estepe, o balançar ininterrupto do mar.

O fotógrafo faz o impossível: acende a luz que ilumina a fruteira sobre a mesa, monumentaliza o instante, mostra a pele do mar.

A fotografia vive destas duas impossibilidades, alimenta-se delas.

O José Miguel Reis quis homenagear Sophia de Mello Breyner Andresen, no centenário do seu nascimento, fotografando o mar, gravando sons do mar e associando as fotografias e os sons com versos de Sophia. Esse mar que fazia parte da sua alma e da sua escrita. Mar inquieto, às vezes calmo, outras vezes bravo, sobretudo o da praia da Granja, onde Sophia costumava passar férias com a família e que a terá inspirado para algumas das suas histórias e da sua poesia.

Nenhuma fotografia vive sem a coisa fotografada, o referente, mas este tende a desaparecer, a apagar-se, a tornar-se num espectro. Assim é nestas fotografias de José Miguel Reis: o referente que lhes serviu de motivo – o mar da Granja – retirou-se, como acontece em todos os retratos. O retrato é retráctil, retira-se para trás. Aquilo que é retratado, seja o que for, ao ser delimitado, torna-se uma entidade separada e, de alguma forma, abstracta, isto é, raptada, retirada. E, mesmo assim, ou talvez por causa disso, ganha atractividade, poderes de atracção. O que atrai nestas fotografias é a possibilidade de tocarmos a pele do mar, feita unicamente de luz e sombra. O grau de abstracção em relação ao referente é tal que o que aqui vemos é uma revelação: vemos a surpresa, aquilo que não vemos quando nos sentamos à beira-mar e olhamos o seu incessante vai e vem.

O José Miguel fez mumificações do mar, construiu monumentos funerários para o mar. Dele apenas resta a pele e a voz. A voz, também indirecta, tecnificada, gravada, diferida. O mérito do fotógrafo reside no reconhecimento deste limites: a fotografia é uma construção. Aquilo que ali está representado aconteceu uma única vez: pela primeira e última vez. Uma fotografia pode ser reproduzida até ao infinito. Mas o momento em que o motivo foi aprisionado (este é o termo) jamais se repetirá existencialmente. Como afirma Roland Barthes, um dos que melhor falou sobre a fotografia, “a fotografia leva sempre consigo o seu referente, estando ambos marcados pela mesma imobilidade amorosa e fúnebre, no seio do mundo em movimento”.

A poesia de Sophia, enlaçada pela voz e a pele do mar, renova-as dentro de cada observador, torna presente o mundo por si construído, faz acontecer um anseio de vida, de renovação e de plenitude. A poesia ‘faz acontecer’, produz-se no momento em que ecoa no íntimo de quem a diz: até se desligar da voz (como escreve Sophia no poema ‘Epidauro’).

A ‘instalação’ pensada pelo José Miguel Reis pretende evocar e envolver. Evocar Sophia pela sua poesia e a sua ligação ao mar. Envolver o visitante da ‘instalação’ neste imaginário, de forma a torná-lo parceiro de vivências. Em última instância, torná-lo participante da poesia: da poesia de Sophia e da poesia das fotografias. O melhor que se pode dizer dum objecto artístico é que ele tem uma poética. Em rigor, julgo eu, não há arte sem poesia: não há música sem poesia, nem pintura, nem arquitectura, nem escultura, nem cinema, nem teatro, nem fotografia… nem literatura. As fotografias de José Miguel têm poesia. E essa poesia que elas têm toca (na pele, pois não há outra forma de tocar) a poesia de Sophia.

Nuno Higino

 

 

 

 

 

 

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