Mário Ferreira

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Mário Ferreira começa a fotografar e a revelar fotografia argêntica com apenas 12 anos, em 1975, por influência do seu pai, que lhe oferece, como prenda de aniversário, um tanque de revelação de filmes, um kit de tinas de revelação de papel, químicos em pó, alguns papéis fotográficos  e uma prensa de vidro para provas de contacto. Em simultâneo, confia-lhe a câmara fotográfica do seu avô, de formato 6×9 com sistema reflex de lentes gémeas. Com este equipamento, começa a imprimir as suas primeiras fotografias em papel, sempre em 6x9cm por serem transpostas para positivo exclusivamente por contacto. Estas primeiras imagens eram sobretudo paisagens que captava durante as viagens com os pais.

Dois anos depois, o pai oferece-lhe, também no seu aniversário, um ampliador Meopta Opemus para fotografia a preto-e-branco e empresta-lhe a sua câmara, uma Pentax Spotmatic F,  já de filme 35mm e lentes intermutáveis de rosca. É a partir daí que começa a explorar a captação de fotografias no quotidiano (nas redondezas do seu bairro, e nas brincadeiras com os amigos vizinhos), bem como as técnicas de ampliação fotográfica em papel. Devido à sua grande curiosidade, torna-se um leitor ávido de livros sobre técnica fotográfica, tendo aperfeiçoado exaustivamente a ampliação usando “máscaras” de cartão, de modo a escurecer/clarear determinadas zonas da fotografia em detrimento de outras.

Em 1980, quando entra em engenharia no Instituto Superior Técnico, no qual ainda se vivia um ambiente pós-revolucionário, com o ano lectivo a começar muito tardiamente, dedica o seu tempo livre ao Núcleo de Arte Fotográfica do IST e nele desenvolve uma actividade intensa, não só de produção fotográfica, mas também de divulgação do próprio Núcleo junto das diversas associações fotográficas nacionais e internacionais.

É na década de oitenta que a sua produção fotográfica é mais intensa, tendo participado em várias exposições colectivas e individuais, enviado trabalhos seus para inúmeros concursos e ganho alguns prémios, bem como se torna presença assídua na maioria dos acontecimentos ligados à fotografia em Portugal. Entre estes, destacam-se os “Encontros de Fotografia de Coimbra”, nos quais conheceu grandes fotógrafos que se tornaram suas influências, nomeadamente Robert Frank e Manuel Alvarez Bravo. Com este último, de quem foi sempre um admirador incondicional, dado o seu particular interesse pelo surrealismo e pela fotografia da América Latina, corresponde-se por carta até à sua morte em 2002, já com 100 anos.

A partir de 1991, devido a uma intensa actividade profissional, afasta-se progressivamente dos protagonistas da fotografia em Portugal, tornando-se nula a sua produção fotográfica, à excepção das fotografias de carácter familiar.

Em termos profissionais, em 2003 decide trocar a engenharia pela medicina e, enquanto estuda de novo na faculdade, volta a reinteressar-se timidamente pela fotografia. É nessa altura que faz um workshop de fotografia com David Alan Harvey, de quem se vem a tornar um forte admirador, e que é, hoje em dia, uma das suas principais influências. Participa também em workshops de fotografia de viagens com o fotógrafo e repórter António Sá, de quem se torna grande amigo. Com ele, faz vários passeios fotográficos em Portugal e Espanha.

Em 2012, na sequência do desaparecimento do seu amigo Bernardo Sassetti, também ele um grande entusiasta da fotografia, Mário Ferreira sente que tem uma “obrigação moral” de voltar a fotografar com maior empenho, de modo a eternizar em imagens, momentos marcantes na sua vida e das pessoas que lhe são queridas.

É a partir desta altura que recomeça uma produção fotográfica mais consistente, dedicando-se sobretudo a dois géneros: à fotografia de viagens, tanto no seu aspecto de reportagem documental, como no de retrato espontâneo, e à fotografia de palco e dos seus artistas, particularmente músicos.

A actual existência de redes sociais na internet veio amplificar o conhecimento generalizado das suas fotografias e o reencontro com inúmeros protagonistas da fotografia em Portugal e no estrangeiro. Esta rica interacção com eles, e com os seus projectos artísticos, tornou-se muito gratificante, e abriu-lhe novas portas para expor e divulgar o seu trabalho fotográfico, como acontece com esta exposição no iNstantes’2018

 

EXPOSIÇÃO: DHOBI GHAT, O LAVADOURO DE BOMBAIM

XE2S7722-Edit-2_expo (3) - Cópia© Mário Ferreira

O lavadouro de Bombaim (actualmente Mumbai), é um daqueles locais que desafiam qualquer fotógrafo que faça reportagem documental em fotografia de viagens.

Chama-se o “Mahalaxmi Dhobi Ghat”, por estar situado no bairro Mahalaxmi de Bombaim, ou simplesmente o “Dhobi Ghat”, dado tratar-se do mais conhecido e famoso lavadouro da Índia, e aquele em que trabalham mais pessoas. A sua fundação remonta a 1890, durante a ocupação britânica, tendo por isso cerca de 130 anos. Nele trabalham  actualmente 7.000 “dhobis”, adultos e crianças, cerca de 20 horas por dia, numa área de pouco mais de um hectare, e está rodeado de zonas em grande desenvolvimento para escritórios, estando em construção vários arranha-céus que contrastam com a pobreza do Dhobi Ghat.

É um denso lavadouro de roupa ao ar livre, a qual é proveniente da maioria das instituições da enorme metrópole, sobretudo dos hotéis e hospitais, e de uma maioria de casas privadas, nas quais a roupa não é lavada in loco. Por tradição, na Índia a roupa não se lava em casa.

A profissão de “dhobi” (que significa “lavador”) é uma daquelas profissões que só existem na Índia, tal como p.ex. os “matadores de ratos” ou “transportadores de lancheiras”. Os dhobis vão aos diversos locais que têm roupa para lavar, recolhem-na, levam-na para o ghat (que significa “local”), separam-na por cores e eventualmente por tipo de tecido, lavam-na pelo processo tradicional em tanques de cimento e com acção mecânica batendo-a contra as pedras, secam-na ao ar, engomam-na em ferros de carvão (praticamente não há electricidade dentro do ghat), voltam a reunir toda a roupa de cada entidade e entregam-na no local de onde a recolheram. Tudo isto feito por esta população de dhobis, na sua grande maioria analfabetos, em que cerca de metade vivem permanentemente dentro do ghat, raramente saindo de lá (o local onde trabalham é também onde comem e dormem) e a outra metade desloca-se diariamente para o ghat a partir de outros locais.

Dada a importância de controlar a relação comercial com os grandes clientes, o dhobi ghat é dominado por máfias. Por razões de segurança, o acesso ao seu interior tem de ser acordado e acompanhado por um dhobi com importância na comunidade.E mesmo assim, há zonas onde não se pode fotografar e outras onde nem se pode entrar.

As condições de luz no interior do ghat são adversas à fotografia, atendendo aos grandes contrastes causados pelas zonas de sombra das roupas a secar e à falta de iluminação nos espaços de trabalho, reforçando o aspecto dramático de um ambiente, já de si, de grande tensão social.

Mário Ferreira espera com esta exposição sensibilizar os visitantes para a dura realidade retratada e para as grandes diferenças culturais que existem entre as chamadas sociedades “desenvolvida” e “subdesenvolvida”, as quais, apesar da forte globalização do séc. XXI, permitem uma grande incompreensão entre os povos e está na origem dos flagelos da guerra, que só um grande esforço de entendimento permitirá o estabelecimento de uma paz duradoura no mundo.

texto de Mário Ferreira

 

 

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